Umbanda

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A umbanda é a mais popular e conhecida religião afro-brasileira, presente em todo o território nacional, tendo surgido no começo do século 20, mais precisamente em 1908, em Niterói-RJ.

Nela, são cultuados os orixás do povo africano iorubá (nagô) e incorporadas entidades (espíritos desencarnados) que “praticam a caridade”, sob a forma de aconselhamento, passes e trabalhos espirituais, em prol dos consulentes que procuram os terreiros. A influência cristã está sempre presente, direta ou indiretamente, sob a forma de valores fundamentais como a caridade, humildade e amor ao próximo.

Segundo a apostila do curso Teologia de Umbanda, do Instituto Adérito Simões:

“A Umbanda é uma religião nova espiritualista e magista, baseada no culto às Divindades e trabalhos espirituais, sem deixar de cultuar Deus que é o princípio de tudo.

A Umbanda fundamenta-se no culto aos Orixás africanos agora renovados para o culto umbandista.

A Umbanda reúne num mesmo espaço (o terreiro) o culto às divindades naturais regentes do planeta (os Orixás) e as práticas religiosas realizadas pelos espíritos que incorporam nos médiuns e dão consultas, orientações, esclarecem, cortam magias negras, afastam obsessores, desmancham trabalhos feitos (despachos), desenvolvem a mediunidade de pessoas possuidoras desse dom, falam em nome dos Orixás (das divindades), são manifestadores de mistérios e de dons, etc.”

Segundo Ademir Barbosa Junior, em seu Livro Essencial de Umbanda:

“A principal finalidade do culto de Umbanda, é o serviço às criaturas humanas e espíritos humanos encarnados ou desencarnados, seja por meio da doutrinação ou por meio do auxílio espiritual, nas dificuldades materiais e morais, alívio ou cura de doenças.

Esse culto deve ser prestado com humildade, pureza e disposição à caridade. Humildade, Pureza e Caridade são os três requisitos indispensáveis à prática da Umbanda.”

Segundo Leal de Souza, primeiro autor umbandista do Brasil, em O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas, o objetivo da religião é:

“a prática da caridade, libertando de obsessões, curando as moléstias de origem ou ligação espiritual, desmanchando os trabalhos de magia negra, e preparando um ambiente favorável a operosidade de seus adeptos”.

A mais brasileira das religiões

Muitos estudiosos afirmam que a umbanda é a mais brasileira das religiões. Assim como a cultura brasileira é uma mistura de influências diversas, a umbanda também sofre influências de diferentes povos e culturas. É, portanto, uma religião profundamente sincrética, tão misturada quanto o próprio Brasil.

A cultura brasileira é o resultado do encontro de três grandes grupos: o colonizador europeu, o escravo africano e o índio brasileiro. Estas são também as três principais influências da umbanda. Porém, elementos culturais de outros povos, presentes no Brasil, também se apresentam na umbanda, como os ciganos e os orientais.

Na realidade, é uma religião que se reinventa continuamente, sempre incorporando em si novas influências. Cada novo elemento cultural que passa a se fazer presente no Brasil, em algum tempo encontra seu espaço nos terreiros umbandistas. Por exemplo, conforme o ocultismo ocidental e o esoterismo orientais ganham adeptos brasileiros, alguns sacerdotes umbandistas acabam incorporando influências destas tradições, adaptando-as às doutrinas e rituais já existentes.

Pode-se dizer assim que a umbanda é um caldeirão que ferve uma sopa em que cada influência cultural é um ingrediente. E na qual novos ingredientes são sempre aceitos, sem significar a exclusão dos anteriores.

Segundo Zeca Ligiéro e Dandara, em Umbanda – Paz, liberdade e cura (p.17):

“A umbanda é uma religião em processo, autoconstruindo-se a partir da sua própria prática religiosa dentro da dinâmica de uma tradição oral multicultural. A enorme e contraditória bibliografia de escritores umbandistas apenas atesta a impossibilidade de transformar essa múltipla tradição oral em algo estritamente dogmático e doutrinário. Neste sentido, a religião se sedimentou pelas inter-relações das inúmeras vivências religiosas de seus líderes e adeptos, tornando-se uma religião pluralista, multicultural e inter-racial.”

A umbanda também é um grande culto à ancestralidade brasileira como um todo. O que é representado principalmente na incorporação das muitas entidades espirituais, como o caboclo indígena, o preto-velho africano, o boiadeiro do sertão etc.

Sobre as diversas influências que compõem a umbanda, a Apostila de Desenvolvimento Mediúnico do Colégio Tenda de Umbanda 2 Caboclos (Módulo 01) diz:

“Não é a religião de uma etnia (do negro, branco ou vermelho), mas o fruto do encontro delas produzindo um sentido, que já não se explica mais pela raça e sim pelo apelo que há na sua identificação com este povo brasileiro.

Costumava-se caracterizar Umbanda como um sincretismo religioso, no entanto, novos estudos mostram que ela é a síntese do povo brasileiro; não é religião de matriz africana nem um conjunto de matrizes produzindo algo, e sim religião de ‘matriz religiosa brasileira’.”

Origem da umbanda

A umbanda surgiu em Niterói – RJ, no começo do século 20, por meio de um jovem com então 17 anos de idade, chamado Zélio Fernandino de Moraes. Após sofrer aparentes problemas de saúde, foi identificado por uma benzedeira como médium, que orientou que fosse levado a um centro espírita (kardecista). Então, em 15 de novembro de 1908, em sessão na Federação Espírita de Niterói, incorporou a entidade conhecida como Caboclo das Sete Encruzilhadas. Não sendo aceito pelo dirigente do centro espírita, que acreditava tratar-se de um espírito atrasado (por ser de origem indígena), o caboclo afirmou que no dia seguinte, 16 de novembro, na casa de seu médium, daria origem a uma nova religião, em que a manifestação de espíritos de índios e negros seria aceita. Segundo o caboclo: “ Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados.” E assim foi fundada a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, primeiro terreiro de umbanda do Brasil.

Principais características

Crença em Deus

Antes de tudo, o umbandista crê em Deus, que está acima de todos os orixás e entidades espirituais. Crê-se que estes atuam fazendo a vontade de Deus e nunca agindo contra ela.

Na umbanda, Deus pode ser também chamado por outros nomes, vindos de línguas africanas ou indígenas, tais como Olorum (iorubá-nagô), Zambi (bantu) ou Tupã (tupi-guarani). Em todo caso, trata-se do mesmo Deus.

Culto aos orixás

Os orixás, divindades do povo iorubá (chamados de nagô, no Brasil), estão presentes na umbanda e marcam a influência do candomblé sobre ela.

A quantidade de orixás presentes em um terreiro pode variar. Estão sempre presentes ao menos sete:  Oxalá, Ogum, Xangô, Oxóssi, Oxum, Iansã e Iemanjá.

É muito comum que se cultue também Obaluaiê/ Omolu e sua mãe, Nanã Buruku. Alguns terreiros incluem ainda Ibeji, completando dez orixás. Outros orixás que podem estar presentes em alguns terreiros, embora mais raramente, são: Exu, Oxumarê, Ossãe e Obá.

O culto a orixá na umbanda tem ritualística e fundamentos próprios, muito diferente de como estas divindades são cultuadas no candomblé.

Entidades espirituais

A umbanda é fundamentalmente uma religião mediúnica, em que espíritos desencarnados altamente evoluídos incorporam em seus médiuns para dar consultas e ajudar os consulentes em seus problemas. Durante as consultas, dão passes, conselhos, fazem trabalhos espirituais e ensinam magias. E sempre orientam o consulente na prática do bem e no aprimoramento interior (reforma íntima).

Em geral, as entidades que se manifestam na umbanda são considerados subordinados aos orixás e seus mensageiros. É comum, por exemplo, que um caboclo diga ser “de Ogum” ou “de Oxóssi”, enquanto um preto-velho afirma ser “de Omolu” ou “de Iemanjá”, ou outro orixá.

Três entidades formam a “tríade superior da umbanda”: pretos-velhos, caboclos e erês (crianças). Já a tríade inferior é formada por exu, pombagira e exu mirim (e pombagira mirim). As demais entidades, que passaram a se manifestar mais tardiamente na umbanda, formam as “linhas neutras” ou “auxiliares”. Entre elas: boiadeiros, baianos, marinheiros, ciganos e malandros.

Em alguns terreiros podem se fazer presentes também algumas entidades menos comuns, como caboclos africanos, bugres, médicos espirituais, orientais etc.

Influência católica cristã

Do catolicismo, a umbanda traz a crença em Jesus Cristo e seus ensinamentos, assim como nos santos católicos. Jesus é muitas vezes mencionado como sendo o “médium perfeito” ou o “orixá maior”.

Os santos foram no passado sincretizado com os orixás, quando muitos devotos acreditavam, por exemplo, que Jesus e Oxalá se tratavam da mesma força espiritual, assim como São Jorge e Ogum, Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá e assim por diante.

Atualmente, o sincretismo entre santos e orixás é cada vez menos aceito entre sacerdotes e devotos, pois compreendem que se tratam de seres espirituais distintos. Ainda assim, muitos umbandistas continuam devotos de santos católicos, ao mesmo tempo em que cultuam orixás, sem que uma fé exclua a outra.

Segundo Zeca Ligiéro e Dandara, em Umbanda – Paz, liberdade e cura (p.58)

“A presença do catolicismo na umbanda pode ser constatada em diferentes aspectos do seu pensamento e prática religiosos. Desde a presença física de imagens de Jesus, da Virgem e de numerosos santos, incluindo o acentuado uso de velas, até níveis mais abstratos como as conceituações umbandistas baseadas no dogma cristão da caridade”.

Influência espírita kardecista

Desde sempre, o espiritismo kardecista exerce uma grande influência sobre a umbanda, que muitas vezes é chamada de espiritismo umbandista ou umbandismo.

A crença na reencarnação é uma das maiores contribuições do espiritismo para a umbanda. Embora essa crença já fosse comum entre alguns povos africanos (bantos e iorubás, por exemplo) e indígenas (tupinambás), é a visão da doutrina espírita que prevalece entre os umbandistas. É a visão de que a reencarnação é um meio para que o ser humano espie seu carmas e evolua espiritualmente, uma noção que não fazia parte das culturas mais tradicionais.

Outra influência do espiritismo é a importância da caridade. O trabalho mediúnico pela incorporação é a maneira como médiuns e guias espirituais fazem a caridade para o próximo. Assim, ajudam na evolução espiritual do indivíduo que atendem, bem como na sua própria evolução (do médium e do guia).

Muitos sacerdotes umbandistas estudam profundamente a obra de Allan Kardec e estimulam seus filhos-de-santo a fazerem o mesmo.

Segundo o sociólogo Reginaldo Prandi, em As religiões negras do Brasil:

“A umbanda absorveu do kardecismo algo de seu apego às virtudes da caridade e do altruísmo, assim fazendo-se mais ocidental que as demais religiões do espectro afro-brasileiro; mas nunca completou o processo de ocidentalização, ficando a meio caminho entre ser religião ética, preocupada com a orientação moral da conduta, e religião mágica, voltada para a estrita manipulação sobrenatural do mundo.”

(…)

“Com a umbanda, acrescentaram-se à vertente africana as contribuições do kardecismo francês, especialmente a idéia de comunicação com os espíritos dos mortos através do transe, com a finalidade de se praticar a caridade entre os dois mundos, pois os mortos devem ajudar os vivos sofredores, assim como os vivos devem ajudar os mortos a encontrarem, sempre pela prática da caridade, o caminho da paz eterna, segundo a doutrina de Kardec.”

Influência indígena

Essa influência se vê na religião principalmente pela incorporação dos caboclos, considerados antigos espíritos de índios que incorporam para auxiliar seus médiuns e consulentes em sua evolução espiritual.

Na realidade, essa influência se dá inteiramente por via espiritual, por espíritos incorporados sob a forma de caboclos. Não houve, no início da umbanda, a presença de índios encarnados, vivos, nem a influência de suas tradições espirituais, denominadas genericamente de pajelança.

Terreiro

O templo da umbanda é popularmente conhecido como “terreiro”. Outros nomes podem ser e são adotados, tais como: tenda espírita, centro espírita, barracão, templo, abaçá etc.

Um terreiro de umbanda é constituído por várias áreas essenciais para a boa prática da religião. São eles: salão/ barracão, congá, curimba, casa de exu/ tronqueira, assistência.

O cômodo maior principal do terreiro é dividido em duas partes, geralmente separados por uma mureta ou corrente. Em uma parte fica o salão/ barracão, que é onde acontecem as sessões de atendimento (giras). É a parte reservada ao corpo mediúnico do terreiro. A outra parte é a assistência, em que os consulentes ficam sentados, aguardando serem atendidos pelas entidades espirituais.

No fundo do barracão fica o congá, o altar da umbanda, em que são depositados imagens de orixás (ou de santos com eles sincretizados) e outros elementos simbólicos dessas divindades.

À esquerda ou direita do congá, fica a curimba, ou seja, o local em que ficam os atabaques e outros instrumentos musicais. Na entrada do terreiro, fica a casa de exú/ tronqueira, em que os exus e pombagiras do terreiro são firmados e assentados para a proteção do terreiro.

Isso é o essencial para que um terreiro seja formado. Outros cômodos podem ser criados, à critério do pai ou da mãe de santo e, principalmente, de seus guias espirituais. Entre eles: assentamento de Ogum, casa das almas (pretos-velhos), biblioteca, cantina, vestiário, depósito, lojinha etc.

Vertentes

A umbanda não é uma religião codificada. Por isso, muito de sua doutrina e ritual varia de terreiro para terreiro, embora sempre haja pontos em comum que permitem identificar um templo dessa religião.

Pode-se dizer que há diversas vertentes ou escolas de umbanda. Entre as mais conhecidas estão: Umbanda Tradicional, Primado de Umbanda, Umbanda Esotérica, Umbanda Iniciática, Umbanda Sagrada, Umbanda Cruzada e Umbanda de Almas e Angola, Umbanda de Caboclos e Umbanda Omolokô.

Geralmente, o que determina as diferenças entre cada vertente são quais das influências formadoras da religião é mais ou menos forte em dado terreiro: se indígena (por exemplo, Umbanda de Caboclos), se africana (Umbanda Cruzada ou Omolokô), se kardecista (Umbanda Tradicional) etc.

Etimologia

Umbanda vem do idioma bantu quimbundo.

O livro Iniciação à Umbanda, de Ronaldo Antonio Linares, Diamantino Fernandes Trindade e Wagner Veneziani Costa, diz:

“Na gramática de Kimbundo, do professor L. Quintão, encontramos: Umbanda: arte de curar (de Kimbanda: curandeiro).”

Câmara Cascudo afirma em seu Dicionário de Folclore Brasileiro:

“Segundo Heli Chatelain (Folk-tales of Angola, 1984), a palavra Umbanda tem diversas acepções correlatas na África: ‘(1) A faculdade, ciência, arte, profissão, negócio: a) de curar com medicina natural (remédios) ou sobrenatural (encantos): b) de adivinhar o desconhecido pela consulta à sombra dos mortos ou dos gênios e demônios, espíritos que não são humanos nem divinos; c) de induzir esses espíritos humanos e não humanos a influenciar os homens e a natureza para o bem e para o mal. (2) As forças em operação na cura, na adivinhação e no influenciar espíritos. (3) Os objetos (encantos) que, supõe-se, estabelecem e determinam a conexão entre os espíritos e o mundo físico’. Englobadamente, como vimos, esta tríplice definição calha bem à Umbanda carioca.

O vocábulo macumba está sendo progressivamente rejeitado. Não obstante Umbanda, como diz Chatelain, derivar-se de Ki-mbanda, por meio do prefixo u, no Rio de Janeiro Umbanda seria a magia branca e Quimbanda a magia negra – esta última ligar-se-ia a macumba. Outros vêem impropriedade no termo, que designaria, não os cultos, mas um instrumento musical, descrito (Lourenço Braga, Umbanda e Quimbanda, 1951) como ‘vara de ipê ou de bambu, cheia de dentes, com laços de fita em uma das pontas, na qual um indivíduo, com duas varinhas finas e resistentes, faz o atrito sobre os dentes, tendo uma das pontas da vara encostada na barriga e outra encostada na parede’. Confirmando a existência desse estranho instrumento, há um ponto de Calunga das Matas:

‘Ô Caçanjé, cadê Calunga?

– Tá lá nas matas

Tocando macumba”.

Referências

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