Fechamento de corpo

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Várias religiões de matriz africana possuem rituais que podem ser chamados de “fechamento de corpo”, mesmo que não usem essa terminologia. São rituais voltados a proteger a pessoa contra ameaças espirituais (feitiços, espíritos obsessores…) ou materiais (tiro, facada etc.). Muitos elementos podem ser usados neste ritual, como chaves, cadeados, correntes, ervas e oferendas.

Tata Tancredo, grande divulgador da umbanda omolocô, em seu livro As Mirongas de Umbanda, descreve uma cerimônia de fechamento de corpo:

“Trata-se de uma cerimônia de grande responsabilidade. A pessoa que vai dirigir êsse serviço deve conhecer perfeitamente as mirongas de Umbanda e os segredos da Natureza. Passamos a descrevê-la, pelo menos na parte que pode ser publicada. É necessária muita cautela, pois alguns curiosos, sem instrução suficiente, cometem erros gravíssimos. Realiza-se esta cerimônia em uma sexta-feira grande, isto é, em sexta-feira que caia num dos quartos da lua nova, em hora “aberta” – 18 ou 24 horas.

O candidato compra uma roupa branca, virgem.

Antes da cerimônia, o candidato toma um banho de “erva quinada”, denominada “isman da lua”, e bebe um pouco da seiva da referida erva. Depois, em local apropriado, fica completamente despido, a sua roupa de uso é tirada e queimada, as cinzas são lançadas no rio de água corrente ou no mar, na hora da vasante.

Com um punhal virgem, faz-se cisuras na testa, na nuca, nas costas, no peito, nas juntas dos braços, nas palmas da mão, no joelho e nos pés do paciente, tudo acompanhado dos pontos próprios para a cerimônia. As pessoas que firmam os pontos durante a cerimônia ficam em local diferente.

Após esse ritual, passa-se no paciente ungüento que vem da Costa d´África (lugar denominado Lagos). É utilizado o seguinte material: alguidar de barro ou tijela de louça, velas de cêra benta, um punhal virgem, sangue de Cristo (vinho), vinagre, pemba, sal, defumador, etc.

Ao terminar a primeira fase da cerimônia, o paciente veste a roupa branca nova. É-lhe proibido ter relações sexuais enquanto se executa o ritual.

Na sexta-feira seguinte, se fôr lua nova, faz-se a confirmação. Na presença de todos, o candidato fica deitado de costas, com os braços abertos, tendo em volta 5 velas acesas, em forma de “círculo de Salomão”. O babalaô inicia a cerimônia, após tirar os pontos cantados próprios, acompanhado pelos presentes.

De costa para o paciente, o babalaô joga 27 punhais em tôrno do candidato, sem atingi-lo, pois todos devem cair de pé.

Inicia-se então outra fase. O candidato fica de pé, encostado em um tabique de madeira, com os braços abertos. O babalaô, de costas, joga os punhais, que vão ficar cravados no tabique, em volta do candidato, sem ofendê-lo. Palmas e cânticos acompanham o desenrolar da cerimônia. Terminada esta, o candidato distribui sangue de Cristo a todos os presentes.

O babalaô apresenta então o paciente à lua, quando termina o ritual.

Os presentes devem tomar banho de descarga, antes da cerimônia.

Faz-se também o fechamento do corpo das crianças, ao nascerem ou ao completarem 7 anos, porém com outro cerimonial.

Esta cerimônia de fechamento de corpo exige muita fé por parte do candidato e muita competência do babalaô, sob pena de acidentes terríveis. A pessoa que se submete a êsse ritual fica ligada ao espírito da natureza, que lhe dará grande intuição. Tôdas as sextas-feiras, deve cumprir os preceitos e instruções que o babalaô lhe recomendar, após o fechamento do corpo, do contrário está sujeito a graves acontecimentos.”

Referência

Dicionário dos rituais afro-brasileiros – LP Baçan

As Mirongas de Umbanda – Byron Torres de Freitas e Tancredo da Silva Pinto

Arsenal de Umbanda – Evandro Mendonça – Anubis

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